Ex-usuário de crack vence as drogas e conquista vaga no Mister Universo.
O baiano Lucas Coelho foi dependente durante quatro anos e chegou a morar de favor em São Paulo antes de largar o vício e conhecer o fisiculturismo.
Ex-usuário de drogas, ele chegou a passar fome por causa da dependência química, dez anos depois, celebra a superação do vício com o que mais ama fazer: malhar. Os treinos, a alimentação regrada e a dedicação o levaram ao título paulista de fisiculturismo no dia 5 de maio, em Campinas, na categoria Class II, até 1,65m. No Brasileiro, no dia 25, Lucas conquistou a terceira colocação, garantindo uma das vagas para o Mister Universo o campeonato mundial da categoria, marcado para outubro, em Londres. Antes disso, ele representará o Brasil no sul-americano, na Argentina, no dia 3 de agosto.
Até lá, além de puxar muito ferro e mandar dinheiro para a mãe, Etelvina, o fisiculturista baiano-ribeirão-pretano terá de lutar contra a falta de incentivo. Só com alimentação e suplementação, Lucas gasta aproximadamente R$ 1.800 por mês. Amigos como o fisioterapeuta Hildemberg Santiago e seu técnico Jefferson Bad Boy tentam ajudar vendendo camisas e rifas para o dinheiro das viagens.
Não é fácil, mas não vou desistir agora, né? Depois de tudo que eu passei, de tudo o que eu sofri, sei do que sou capaz e posso chegar ao Mundial. Quero ser campeão - afirmou.
A trajetória de Lucas:
O sonho de Lucas Coelho sempre foi ajudar no sustento da família. Aos 15 anos, morando na pequena Gandu, no interior da Bahia, ele abandonou os estudos para vender sacolé e carregar compras de supermercado. A grana, que mal ajudava a mãe, dona Etelvina, foi perdendo valor ao ser repassada aos traficantes. Viciado em maconha e cocaína, o adolescente via cada vez mais distante o desejo de prosperar com a família. Com 16 anos, mesmo sem o aval da mãe, que não sabia da dependência química do filho, Lucas colocou uma mochila nas costas e viajou a São Paulo para morar de favor na casa de um tio.
Comunicativo, não demorou muito a ocupar uma vaga como vendedor de uma loja de roupas. O dinheiro, suficiente para sustentar o vício e mandar um trocado para Gandu, fez com que Lucas deixasse a casa do tio para morar com um amigo: a porta para o crack estava aberta.
Sozinho, sem a presença da mãe, vieram as angústias, a saudade, a fome e a sensação de que a vida dele estava entregue às drogas. Entre o prato de comida e a pedra, Lucas não tinha forças para recusar o vício. Passava fome, mas matava o desejo de consumir o crack.
E não era apenas o vício que o deixava para baixo. No emprego Lucas era alvo de comentários preconceituosos. A humilhação chegou ao ponto de uma funcionária jogar resto de comida em cima da mesa e dizer para ele comer. "Você é baiano, nunca vai ser ninguém na vida. Não tem nem dinheiro para comer. Vai, come esse resto", lembra Lucas.
E ele não tinha a quem recorrer. Dona Etelvina, sua fortaleza, estava a 1.700 km de distância.
A única forma de contato era via telefone. E foi em uma dessas ligações que ela soube do envolvimento do filho com as drogas. Desnorteado, Lucas já não tinha residência fixa ou refeições regradas. A droga matava a fome e a sede. A casa dos amigos, cada dia uma, era a nova moradia.
A rotina era desgastante e cansativa. Alucinações, crises e dores, causadas pela overdose cada vez mais comum, fizeram com que certo dia, depois de quatro anos, Lucas resolvesse mudar de vida. Ao ser olhar no espelho, a cara de poucos amigos condenava o menino pobre da Bahia que deixava seu estado com o intuito de ajudar a família, e que estava rendido na capital paulista.
O esporte é maravilhoso e pode mudar a vida de muita gente"
Lucas Coelho
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Empenhado e curioso, Lucas buscou informações, assistiu a filmes e vídeos e resolveu dedicar-se ao fisiculturismo.
Em uma de suas competições, em São Joaquim da Barra, conheceu um instrutor de Ribeirão Preto, e soube que a cidade do interior paulista oferecia oportunidades dentro do que ele mais gostava. Aos 24 anos, conheceu uma das principais academias da cidade, especializada no esporte, e fez não apenas amigos, mas conheceu sua atual esposa, Jane Cuaglio.
Ela foi uma das pessoas que mais apoiaram a minha carreira. Ela e meu cunhado, o Jefferson (dono da academia), foram fundamentais para eu conquistar tudo o que tenho hoje. Estou limpo. Não sinto vontade nenhuma, e não há nada que pague essa sensação de andar com a cabeça erguida, poder comprar uma roupa, comer bem - desabafou.
O grande sonho de Lucas não está apenas na conquista do Mister Universo. Para ele, mais do que ser reconhecido entre os fisiculturistas, o objetivo é disseminar o esporte e ajudar aqueles que encontram barreiras na vida.
Exemplo para muitos dependentes químicos, Lucas tem ministrado palestras e ajudado pessoas a largar o vício.
Eu quero ajudar as pessoas. O esporte é maravilhoso e pode mudar a vida de muita gente. Claro que tenho o sonho de ser o Mister Universo, mas sei que posso contribuir ainda mais com a minha história de vida. É preciso entender a cabeça dessas pessoas, estender a mão e mostrar que é possível sair desse mundo - comentou. Mamãe Etelvina.
Ela falou sobre a angústia de ver o filho, ainda adolescente, deixar a terra natal e se aventurar na capital.
Não foi fácil. Fiquei muito triste porque a gente não quer o filho longe da gente. Foi sofrido e sentia muita falta. Eu queria que ele ficasse, mas não tinha trabalho para ele ganhar dinheiro aqui. Ele queria muito, eu não queria que ele fosse, mas não tive o que fazer - disse.
Depois de 10 anos sem o ver, dona Etelvina conta como foi o reencontro com o filho, já curado da dependência química.
Ele já estava em São Paulo quando me falou das drogas. Sei que ele tinha uma vida mais corrida e isso me deixava muito preocupada. Ficava pensando nele o tempo inteiro, sem saber onde ele estava, e o que ele estava fazendo. Mas graças a Deus ele conseguiu vencer na vida. Ele ficou mais bonito com certeza. Torço muito por ele, para ele ser campeão - brincou a mãe, que agora acompanha as competições do filho por telefone.

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